2007/10/05

Provavelmente Vai Servir Para Alguma Coisa...

Já há bastante tempo que se discute entre os estudantes universtários questões relacionadas com bolsas a serem atribuídas pelo Estado para a realização de doutoramentos. Já há bastante tempo que também se discute que tipo de investigação, os professores fazem na sua vida académica, quando a fazem.

Sempre fui muito crítico relativamente a estes assuntos, pois desde os meus 23 anos, através tanto do mundo académico como do mundo profissional, vi muitos trabalhos interessantes na minha área de especialização, trabalhos estes com potencial aplicação na vida real. Curiosamente também vi imensos que, tanto em teoria como na prática, nunca serviriram para nada, excepto para a satisfação pessoal de quem os desenvolveu, seja por motivos de própria ingénua parvoíce ou por que era preciso fazer alguma coisa para mostrar trabalho.

Hoje, continuo rígido nessa questão. Como o dinheiro não é elástico, acho que todos os projectos devem ser devidamente analisados para que determinadas verbas não sejam perdidas em coisas que não levam a absolutamente lado nenhum.

Será preciso uma tese para mostrar o efeito na mente humana da troca das letras 'A' e 'B' no temo "Abstracto"?

[photo by Kraak/Peixinho @ Cuenca (ES), 2 Set '07]

2 comentários:

strange quark disse...

Kraak,

O post acima sobre os Ig Nobel é que me chamou para este. Ainda que perceba o que pretendes afirmar não posso concordar contigo, pelo menos na forma como o escreves. Estou no meio académico, como também em tempos estive na indústria, por isso estou à vontade para falar de uma certa maneira. É certo que há trabalho desenvolvido cuja utilidade é questionável, mas para isso servem os paineis de avaliação e garanto que (muito) poucas actividades há que sejam tão profusamente avaliadas como a investigação científica. Podemos questionar a validade dessas avaliações, mas se estivermos a falar a nível internacional (e eu falo disso), ainda que não hajam sistemas perfeitos este é, ainda assim, de qualidade. Claro que há sempre erros, omissões e milhentas outras críticas que podemos apontar, mas não vale a pena perdermo-nos nesses detalhes. O essencial que pretendo deefender é que a actividade de investigação não pode ser tolhida de falta de liberdade, e isso pode levar-nos a num dado momento não compreendermos o alcance de determinadas propostas. Isso chega a acontecer com especialistas, quanto mais com a precepção que a própria sociedade faz do trabalho de investigação. Alguns exemplos: que utilidade parecerá terem tido as experiências de Faraday com electricidade na sociedade inglesa do sec. XIX? ou o próprio trabalho de síntese de Maxwell? e a lei de Gravitação de Newton no séc. XVII, senão uma mera curiosidade do intelecto humano, numa tentativa de compreender o Mundo? e o tipo que um dia a escavar canais em Londres no séc. XVIII decidiu estudar os pequenos fósseis que estavam nos estratos? Sem esta curiosidade, hoje não estaríamos a comunicar, não teríamos enviado ninguém à Lua ou sondas a Marte, não produziríamos cartas geotécnicas (fundamentais para a construção) ou desvendaríamos os climas do passado, tão necessários para (tentar) compreender o do futuro. O que hoje é sensível na sociedade é a questão do financiamento, e eu próprio não tenho grande problema em afirmar que há muita ciência irrelevante (não quero dizer inútil, porque não o é). O sistema científico tal como existe hoje, que depende de financiamentos essencialmente públicos, não se pode colocar numa torre de marfim e dizer que faz o que bem entender, por isso cabe à sociedade definir se a investigação científica deve ou não ser feita e em que moldes, e quem não o aceita simplesmente deve procurar alternativas. O trabalho de investigação tem hoje um papel triplo: a formação do próprio investigador, porque é assim que se estuda realmente e se aprende; a formação avançada de estudantes, já que o ensino livresco não nos conduz a lado nenhum; o progresso do conhecimento. A parte que mais questiono em todo este cenário é precisamente o último, daí o termo irrelevante relativo a muito trabalho realizado. Mas tal como na música não há verdadeira criatividade sem liberdade artística, também não há criatividade na ciência sem liberdade de pensamento.

Um abraço :)

Kraak/Peixinho disse...

Strange Quark :) Claro que sim! Ainda bem que existem tais Comissões Científicas e muito sinceramente quero acreditar que elas funcionam, em certa medida. A questão prende-se precisamente com o facto de muitas pessoas se sentirem lesadas pq naum vêem o seu projecto aprovado para receber uma bolsita ou outra coisa do género.

Acredito na liberdade da investigação, mas quero acreditar ainda mais na supremacia do bom senso, em determinados aspectos. Sempre tive um espírito muito prático e hoje em dia acho que seria necessário um maior casamento entre indústria e meio académico.

Já vi coisas aberrantes na minha área e ainda continuo a ver. Já vi colegas que há 20 anos andam a investigar coisas que outros já resolveram em menos de 5. Já vi teses absurdas sobre as vantagens de ir a Paris passando por Tóquio e mais naum é preciso dizer.

Pelo menos é como sinto na minha área científica que está preparada para naum embarcar em direcções onde à partida já se sabe que naum se encontrará nada admissível.

Sendo o "Progresso do Conhecimento" um dos vectores mais importantes, diz-me sinceramente qual o interesse, tal como no post anterior, de alguns dos estudos efectuados?

Hugzz Científicos