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2008/06/23

Pois... É Mesmo Too Loud


Do trabalho ou da universidade pouco importava. De comboio ou de carro também não fazia diferença. Encontraram-se finalmente. Cada um com histórias diferentes, como se tivessem ambos sobrevivido ao fim do mundo, mesmo que durante alguns segundos, parados permaneceram com a cabeça erguida e com um sorriso quase de primeira página. Ninguém comera como deve ser numa conversa tão animada como comprida que tomou conta das personagens, como se a vida adulta não passasse tão depressa, como se o tempo se assustasse consigo próprio pelo prazer dos ponteiros do relógio avançarem de forma lenta.

Nesta mesma manhã ao acordar com o vento que lhe baloiçava as cortinas da casa, apesar do verão já presente, só pensava que o dia hoje, para seu próprio bem, deveria correr muito depressa, num abrir e fechar de olhos, como se as divergências pudessem alguma vez violar a revolução que ambos tentariam alimentar.

A uma determinada altura o relógio tonto teve que dar sinal, mas ao mesmo tempo avisou que ali, ninguém iria morrer, porque a escama prateada talvez fizesse parte da cripta subterrânea que uma deliciosa barra de chocolate traria à superfície, como se ao chegar a casa ambos tivessem a necessidade de elevar o som do amplificador, nem que fosse para sentir o mar mais perto.

[dedicado à Humanidade, by Kraak, 2005, Viagens de Comboio pelo Mar, 1965-20XX]

2008/04/28

Uma Questão de Fuso Horário


Quando os sinos das igrejas de Praga anunciam, em voz alta, os simples mistérios da minha própria vida, é altura de pensar que a minha alegria é pequena comparada à insignificante dor que sinto quando, próximo à minha garganta, se encontra um bocado de comida quente. De alguma forma também misteriosa ando com ela a rolar, entre os dentes e o céu da boca, até que ela arrefeça.

Como a comida quente custa a arrefecer o melhor mesmo é empurrá-la com um copo de vinho. Aceita-se portanto que ela não sabe a nada.

São estes pequenos acontecimentos que me permitem concluir que o tempo não se expande.

[photo by Kraak @ Castelo de Praga, Praga (CZ), 26 Abr '08]

2008/03/15

The After-Party



"Time may change me but I can't trace time".

in "Changes", taken from 'Hunky Dory', by David Bowie

2008/01/05

O Incremento da Dimensão

Um dia, no futuro ou na eternidade, irei encontrar uma estrela ou um planeta onde possa sentir o que vivi há algum tempo atrás. Saltarei de anéis nebulosos para astros os quais esclarecerão os triunfos que não tive. Como uma sucessão matemática de números naturais, mas recorrente. Programam-se os sonhos e projectam-se os sentimentos como se o hálito da vida pudesse ser definido de forma dinâmica.

A minha amiga ontem apareceu novamente...
Não na minha janela.

Feliz fiquei eu porque, apesar de a desejar novamente na minha janela, ela fez com que outros se sentissem felizes. Assim concluo que o mundo não é só feito de variáveis discretas, mas também de variáveis reais. Como se vivesse em R(n+1).

2007/12/29

At the Bottom of a Gigantic Crateer, an Armchair Calls to You


Apesar da rudez do outono, o inverno começou calmo e isto não prentende ser uma melodia fúnebre. É uma das canções que, por um trilho, me levam ao mar, onde as ondas falam. Prova de que o mar não está morto.

Quando o mar estiver morto, ele já me terá levado e assim brinco com as palavras como se estivesse a jogar um jogo de tabuleiro e...

canto a canção que o silêncio canta. Como se estivesse estendido numa cadeira de baloiço, a analisar que os seus movimentos, para trás e para frente, assemelham-se a uma progressão geométrica cuja razão não é constante. Pelos vistos, no infinito, com ou sem impulsos travados ou não pela inércia e pelo atrito, essa cadeira ambulante continua no mesmo lugar. Talvez este seja o seu apocalipse.

Ouve, o tempo é mesmo uma variável desonesta.


O tema de hoje (o 3º melhor que mais me marcou em 2007), não é novo, já por este blog passou e teve direito a escrito. Trata-se de "Armchairs", trazida pelo norte-americano Andrew Bird no seu álbum 'Armchair Apocrypha', um dos melhores álbuns editados em 2007, segundo a minha opinião pessoal. Mais alguns (meus) apontamentos sobre Andrew Bird, podem aqui ser encontrados.

"The awkward pause
The fatal flaw
Time, it's a crooked bow
Time is a crooked bow

In time you need to learn, to love
The ebb just like the flow
Grab hold of your bootstraps, and pull like hell
until gravity feels sorry for you, and lets you go
As if you lack the proper chemicals to know
the way it felt the last time you let yourself fall this low

Time's a crooked bow
Time's a crooked bow
Time, it's a crooked bow
"

2007/12/24

Believe Me When I Say


Após alguns dias de ausência, o top tracks 31-2007 continuou por aqui com o seu alinhamento. Hoje quero aqui deixar a 2ª menção honrosa de 2007 a qual vem pela mão dos dinamarqueses The Raveonettes: "With My Eyes Closed", extraída do álbum 'Lust Lust Lust'. É um pouco como descobrir pérolas em álbuns que caminham entre a sombra e o luar, adormecidos pelo ressonar dos incertos. Uma música bela com uma letra triste. Mais informações sobre os The Raveonettes podem ser obtidas aqui.

Neste Natal, fecho os meus olhos para me esquecer de ti e fecho os meus olhos para te deixar.

FELIZ NATAL a todos!

2007/12/10

Shadows They're Good, Then I Know There's Light


Quando alguns momentos da vida são desperdiçados, nada como pensar que estamos cada vez mais perto daquilo que nunca iremos ter. Como já há muito referi neste blog, existimos entre parênteses, vivemos num mundo incerto, não sabemos quantas lágrimas irão escorrer dos nossos olhos até ao nosso queixo, desde a nascença ao fim da nossa existência.

Mas também se o mundo fosse certinho e se todos fossemos igualinhos, qual seria a piada de viver? Estes são os nossos maiores desafios e a graça e a inteligência de viver, residem nesse ponto. Nem que seja com o auxílio da luz das sombras a desbravarem os nossos trilhos. É como viajarmos de avião à noite: na altura da descolagem e da aterragem, as luzes da cabina são reduzidas: se acontecer alguma coisa má, já estamos habituados ao escuro.

Certo? Certíssimo!

Hoje chega o tema #22, de um dos grandes álbuns de 2007: "61" dos dinamarqueses The Kissaway Trail, extraído do auto-intitulado álbum, 'The Kissaway Trail'. Mais informações sobre os The Kissaway Trail podem ser lidas aqui.

"Yeah!

Writing everything down
In order to keep track of time
The scent, the day, the moment!

With hands covering my eyes
Shadows they're good, then I know there's light
We can, we're strong, we'll beat it!
We can, we're strong, we'll beat it!
We can, we're strong, we'll beat it!
"

2007/11/02

A Não Ser Que Haja Sol


Refrescante como assistir a mais um episódio de "Um Amor no Alaska" é imaginar que no Thanksgiving nacional, se é que ele existe, é possível que esteja a chover neste país. Se sim, nada como poder provar novamente o sabor das gotas de chuva que caem e passam brilhantes pelos candeeiros da cidade.

2007/09/28

Superstar Seagull

Numa tempestade de areia que ocorre quando os ventos sopram de norte, até as gaivotas fecham os olhos e andam de lado.

Depois de chegarmos ao fim do dia e constatarmos que as luzes da cidade ainda não estão acesas, só nos resta esperar que o brilho do dia seguinte surja, com a ajuda dos ventos, da montanha mais próxima.




[photo by Kraak/Peixinho @ L'Estartit (ES), 7 Set '07]

2007/09/08

A Caminho do Exílio



Passa o tempo, passam as políticas, passam as pessoas, passam as tempestades, passam as ondas, passa o comboio lentamente por terras passadas. Os habitantes das terras imaginam como seria o tempo com mais velocidade. Contemplam um futuro que não passará por ali. Tentam descobrir onde mora a esperança e entender o enigma dos comboios. Como se lentamente se perdessem num descarrilamento ocorrido no fim do mundo.

[photos by Kraak/Peixinho @ Cuenca (ES), 2 Set '07 e Teruel (ES), 3 Set '07]

2007/04/30

Músicas Que Me Fazem Chorar: Hoje, "Armchairs"


São muitas as músicas que me põem com uma lágrima ao canto do olho. Quem me conhece, sabe que é assim. Quem me acompanha neste blog desde os seus primórdios, também disso já se apercebeu. Muitas passaram por cá e tiveram mesmo direito a post. Em 2007, nada em particular me tinha tocado tão profundo como o tema que está em audição ("Armchairs" de Andrew Bird1).

Se esta música não é minha, se este tema não é meu, como foi que eu cresci até chegar aqui? Felizmente habita no meu particular território sem eu ter dado pelo tempo passar. Nestes tempos de hoje em que as cidades parecem morrer, em que ingerimos químicos para sobreviver, onde lutamos para não cairmos num buraco onde os idiomas não existem, mesmo quando estamos à beira de um abismo, quero continuar a lutar para que os buracos negros sejam cada vez menos visíveis.

Para começar, reduzindo a distância que separa as nossas cadeiras.
Figuradamente.


O tempo é mesmo uma vénia torta. Desonesto como uma flecha que não cumpre a trajectória descrita pelo arco. Nestas cidades de plástico onde o tempo empurra as pessoas para a distracção e a estagnação, quero continuar a ter rasgos de alguma esperteza e sensibilidade, mas sempre acreditando que estou alegre por ter esperança ao caminhar por todos os trilhos compostos por violinos, pianos, passarinhos e peixes.

1 A quem possa interessar, Andrew Bird passa por Portugal em Maio e Junho '07: consultar datas aqui. Kraakinho escreveu sobre o recente álbum de Andrew Bird, 'Armchair Apocrypha', no seu blog de desdobramento, Kraak FM <'+++<.

[photo credits: Cameron Wittig, via Popmatters]

2007/02/17

Robinson "Paixaum" Crusoé, Ano #3


Este blog tanto pode ser caracterizado como um porto de paz como um naufrágio. Às vezes, cá por estes lados, desaparecem as estações, perspectivam-se sonhos pensados, tremem-se os corações, educa-se o cérebro, encaram-se as realidades nos seus mais variados aspectos, suspende-se o tempo e repete-se o de sempre, como se este blog não envelhecesse.

Se achava que a variável 'Tempo' não afectava o Paixaum >+++'>, de repente, ao fim de 2 anos, reparo que este blog "está velho" e não é eterno, apesar do tempo estar suspenso.


Na maior parte das vezes encaro este blog como uma ilha onde os meus pensamentos permanecem alheios ao mundo, como se separados dos continentes. Quando isto deixar de acontecer, é porque o tempo retomou o seu curso. Enquanto isto não ocorre, o Paixaum >+++'> parte, a partir de hoje, para o seu 3º ano de existência.

Obrigado!

:)

2006/03/24

O Noivo Corno e a Noiva Galdéria


Cenário:

Os corredores do local de trabalho, os elevadores que nos levam de baixo para cima, os balcões de um café onde as pessoas se acotovelam chateadas pelo tempo que está no exterior.

O que há de interesse quando alguém diz: "Bom dia. Bom dia não, mau dia." ? Pode alguém afirmar pela negativa? O facto de estar mau tempo significa que não se deseje um bom dia às pessoas?


Lamento, mas não posso ajudar. Não me dirijam a palavra porque não sei fazer um monólogo a dois.
Será por indiferença ou será por desinteresse? Se me calo, parece que estou a mudar a côr dos meus pulmões. Para preto. A queimá-los. Mas... e se não me calo? Não sei se isto é uma tragédia ou um pecado.

- "Que belo casamento. É pena a vergonha que foi o dia da boda porque o noivo não passa de um corno..."

Será que alguém o pode ajudar? Ou ajudar a galdéria da noiva?


O tempo hoje esteve decididamente sarcástico connosco. De qualquer forma as gotas da chuva caminham vestidas de branco.

2005/03/15

O Que Sou Hoje?



Zero. O que posso tornar-me amanhã?
Amanhã posso renascer dos mortos e começar a viver de novo!
Posso ressuscitar o homem em mim, enquanto não se perder completamente!


(Fiódor Dostoievski)

2005/03/07

Comboios (Divagações Sobre Recordações)


[ Kraak/Peixinho @ Estação de Santarém, 1988 ]

O comboio avança, as estações sucedem-se, as horas correm. Pensando nas fases da vida que não são já as de infância, acho que uma viagem de comboio é, também, como uma representação do tempo da própria vida, da sua duração com as suas frases e ilusões distintas, com as suas repetições também previstas e também com as suas monotonias. Porque em determinada estação é previsível que ocorra algo sempre igual, sempre e em outra ocorrerá algo também parecido por experiência anterior.


Só que a chegada a uma determinada estação poderia ser comparada com a abertura de uma grande ópera. Porque de facto anunciava algo prometedor e grandioso.

Os comboios mudaram... mas deixaram a sua consciência romântica desde o seu nascimento no século XIX (século romântico por excelência).