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2008/07/02

23 Minutos


As viagens de comboio permitem-me sentir a natureza de várias formas distintas: ver as gravatas dos homens, ver as revistas que algumas mulheres folheam, ver os pássaros a voarem misturados com os alucinados anúncios que povoam os caminhos à beira da linha ou mesmo imaginar esquilos saltitantes entre os assentos das carruagens.

Acima de tudo, permitem-me sentir um estrondoso desejo de água, subir à piscina, descer até à praia, como se eu um dia voltasse a me descalçar nos arredores do meu interior. Sensibilidade de rara possibilidade.

2008/06/17

Eu Não Tenho B.I.

O comboio que o leva desde Irún a Lisboa percorre várias paisagens, várias serras e várias estações. Paisagens que, a medida que os carris ficam para trás, a temperatura começa a baixar, até que, mais perto do seu destino, ela começa a aumentar. Sentado na sua carruagem couchette, decide ir à carruagem-restaurante, onde passado algum tempo acaba por conhecer uma espanhola, que veio a saber, entrara em Burgos e saíria em Coimbra. B. Coimbra-B. Ana viajava também sózinha. Acompanhava-a um cálice de vinho do Porto sobre a mesa. O que o acompanhava era um walkman enorme, de marca Crown, vermelho, com cassettes gravadas de programas radiofónicos que passavam a altas horas da noite.

Perguntava-se a si próprio porque não teria consigo uma revista ou um livro para ler na carruagem-restaurante enquanto ali permanecia. Ele próprio não obteve resposta. Estava demasiado cansado para pensar no assunto. Pediu o seu habitual café e sabe-se lá por qual motivo, sentou-se ao pé de Ana.

- Sabes, aprendi a viver de outra maneira, tal como tu que trazes esses headphones nos ouvidos.
- Pois, é por essa razão que nesta viagem imagino que esta carruagem é uma esplanada que desliza em cima das águas de um rio.
- Tenho aqui uma fotografia dos meus avós - portugueses - abraçados. (Tira a foto). Queres ver?
- Tens avós portugueses? Que giro. Sim, quero. Claro que quero ver a fotografia.
- Toma.
- Hum... Isto é puro. Vê-se tão bem que são ou foram felizes. Será que hoje em dia estamos dispostos a conceder este tipo de amor?
- Canta-me em voz alta o que estavas a ouvir.
- Não.

[dedicado à Humanidade, by Kraak, 1985, Viagens de Comboio pelo Mar, 1965-20XX]

2008/06/12

Little Words on a Mobile Phone

Há vozes que brotam da água e crescem com a corrente. Pelas margens não é o sol que fecunda a terra nem as gotas d'água que caem do céu. Nem a pureza fina do sangue. Nem as cores do arco-íris fundidas numa única.

São apenas as vozes que estão autorizadas a tal: as que conseguem voar por cima das nuvens. :)

2008/03/25

A Capacidade de me Alimentar

Hoje cheguei à conclusão que as plantas da minha casa têm sempre mais água do que aquelas que estão no exterior.

2008/03/21

Músicas Que (Ainda) me Fazem Chorar: Hoje, I Still Remember

Passado pouco mais de 1 ano do aparecimento do tema "I Still Remember" dos Bloc Party, pergunto-me como é que um clip e uma música podem ajudar a fazer o retrato deste blog...


Video Credits: wichitarecordings @ youtube.com
by Bloc Party, "I Still Remember", extraído do álbum 'A Weekend in the City', 2007.


Os comboios não têm mastros, mas no mundo moderno, a maioria deles tem pelo menos um pantógrafo ou se alimentam através de um terceiro carril.

2008/03/14

Fazer a Barba do Corpo

Não tenho perguntas. Tenho respostas.
Tenho sonhos. Não tenho pesadelos.

À medida que desperto, o relógio insiste em avançar. Manda-me alertas. Como se a minha cama estivesse em fogo, levanto-me com um encontro marcado com a manhã.

Lavo o rosto da matéria que habitou a noite. Atravesso a banheira como se precisasse limpar os versos embebidos na minha pele. O sabonete arde. O shampoo queima. A água ferve.

Como se tivesse feito a barba ao meu corpo. De forma cadenciada.

2008/01/11

A Humidade da Cova

Eu não tenho medo da vida. Da morte, acho que também não: habituei-me há alguns anos à ideia da sepultura. Apesar de seco, ainda tenho água para alimentar o contorno do meu caos. Sem humidade, também consigo valer-me dos fósforos ou do isqueiro para acender o rastilho do inesperado.

A questão é que a água é um bem cada vez mais escasso.